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Devíamos dar mais desses passeios sem destino certo; devíamos ter menos encontros marcados, e mais encontros casuais. Quando tivermos dez minutos para chegar algures, devemos levar vinte, para podermos ir com toda a pachorra, e ver de caminho tudo quanto nos seja possível ver. E enquanto andamos, devemos fazer menos uso das pernas do que do poder de observação. Numa palavra, afrouxemos os músculos, e aceleremos a alma! A arte da ociosidade não é de natureza negativa; ao contrário, ela implica uma seletividade mais penetrante das coisas que são dignas de nossa atenção. Precisamos é de trocar de objetivos - em vez de querermos chegar algures, devemos procurar recolher impressões e liberar nossas emoções e sentimentos, enquanto estamos a caminho. Todos devíamos ler Thoreau, pelo menos uma vez por ano, e meditar bem em passagens com o seguinte: "Quando era mais novo, passei muitas horas vogando na lagoa de Walden ao sabor da brisa, deitado de costas nos bancos, depois de haver remado até ao meio da água, sonhando acordado num fim de manhã estival, até que o bote, ao embicar no areal, me acordava, e eu me erguia para investigar a que praias me havia arrojado o destino. Dias em que a ociosidade era mais atraente e produtiva das ocupações. Muitas manhãs eu escapuli assim, preferindo passar desse jeito a parte mais preciosa do meu dia; pois eu era rico, se não em dinheiro, pelo menos em horas cheias de sol, e dias de verão, e os gastava prodigamente; nem tampouco lamento não ter desperdiçado mais dias e mais horas na oficina ou à mesa de professor." Devíamos dizer a nós mesmos, pelo menos uma dúzia de vezes por dia, que a pura e simples eficiência nas horas vagas. Vamos a jantares e outras reuniões, onde esperamos encontrar alguém que possa apoiar nossas aspirações de melhoria na carreira; o que devíamos era falar muito mais com as pessoas que de nenhum modo nos podem ajudar a chegar seja onde for: com o cidadão que nos vem consertar a geladeira, com os carpinteiros e ascensoristas, com os homens que fazem o trabalho deste mundo - e não apenas com aqueles que falam em fazer o trabalho. Foi com um trabalhador manual que eu aprendi alguma coisa do imperscrutável mistério das abelhas, seus hábitos e tendências, e a beleza da massa primitiva e confusa que elas formam a caminho da nova colmeia, após a enxameação da primavera. O mistério da abelha nada tinha que ver com o trabalho desse homem, nem com as minhas ocupações daquele dia: mas por essa razão, precisamente, bem como pelo interesse inerente ao assunto, aprendê-lo foi como que pôr meias-solas na minha alma - pelo menos temporariamente. Furtado assim um pouquinho da alegria de viver, muitas vezes conseguiremos fazer justamente aquilo que mais desejamos no fundo de nossos corações, em vez de seguirmos à risca os ditames do nosso ambiente social. A festa de sábado no clube - que a leve o diabo! E esse romance que acaba de aparecer - ora, há outros muito melhores, saídos há 50 anos, e que eu ainda não li. Por que não hei de ficar em casa, folheando alguma coisa de mais substancial do que o último romance de êxito, ou mesmo simplesmente, conversando em família? O espírito humano, tal qual a terra, exige rotação de culturas. Por que não experimentar, por exemplo, a pintura a óleo, embora sabendo que somos uma autêntica negação? É um aprendizado vagaroso, que nos ensinará a olhar. Ou então a fotografia; ou algum domínio especial de estudos que não conduzem a parte alguma, ou só Deus sabe aonde? (Alguém já disse que a base de toda a ciência é o desejo de satisfazer a curiosidade.) Um dos maus resultados da pressa é o egoísmo. E, para muita gente, experimentar um pouco de altruísmo talvez fosse com uma lufada de ar fresco nos pulmões. Tudo isso leva tempo; mas acaba agindo sobre nós como uma obra de magia interior. Destinemos todos os dias meia hora, ou mesmo uma hora, para sairmos do ramerrão, e fazermos alguma coisa pelo nosso semelhante. Gastemos, por exemplo, toda semana, algum tempo prestando serviço num hospital, ou ajudando a qualquer outra instituição. O que digo, em resumo, é isto: façamos um esforço, ainda que seja só por alguns momentos nas 24 horas do dia, para usufruir - ou furtar - um pouco da sensação de ociosidade. Deixemo-nos "de molho": nunca ninguém conseguiu pensar coisa alguma debaixo de um chuveiro: é demasiado veloz e demasiado eficiente.
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