CONCLUSÃO


Assim, foi se formando ao longo do tempo, uma rede de intrigas, mitos, crenças que tem ajudado - e como - a caracterizar a matemática como um saber de elite, criando obstáculos muito sérios à sua aprendizagem. É comum ouvir-se na escola:
- a matemática é mais difícil que a maioria dos assuntos.
- a matemática desenvolve o raciocínio lógico, a capacidade de pensar.
- a matemática é exata; ou está certo, ou está errado.
- eu gosto de matemática, vou fazer engenharia; eu não gosto de matemática, vou fazer Letras.
- o cara é o melhor aluno da turma, só tira dez em matemática.
- não consigo aprender matemática, sou burro mesmo.
- só podia ser professor de matemática; olha a cara de maluco dele !
Perda de auto-estima, medo, insegurança, baixa avaliação pessoal, neuroses, ansiedade gerada por aprendizagem de matemática, são facilmente encontradas em nossas escolas. Não é surpresa, então, ver a matemática como a maior geradora de fracasso na escola, e provavelmente responsável por uma grande parte da evasão escolar.
Não basta, portanto, melhorar ou trocar conteúdos, modificar currículos e procedimentos pedagógicos. Não basta discutir avaliação, abstrato x concreto. Enquanto não verificarmos essa rede de crenças, mitos, religiões e ideologias que permeiam a vida escolar e o ensino de matemática, estaremos buscando sempre soluções parciais, que se tornarão falsas soluções com o andar do tempo.
É preciso desmontar essa rede, desmascarando falsas concepções, desnudando a história da matemática, a história das ciências, da filosofia. É preciso estudar e identificar todas as representações que envolvem o ensino de matemática, criadas e engendradas dentro e fora da escola. Precisamos perguntar, indagar senão manteremos o domínio da matemática como a vê Roger Bacon:
"O abandono da matemática traz dano a todo o conhecimento, pois aquele que a ignora não pode conhecer as outras ciências ou as coisas deste mundo".
Bacon escreveu isso em pleno século XIII, idade das trevas e é triste verificar que esta idéia ainda permanece com todas as suas consequências nefastas. No entanto, há vozes discordantes como a de Tobias Dantzig:

"Os nossos currículos escolares despindo a matemática de seu conteúdo cultural e deixando um esqueleto nu de tecnicismos, repeliram muitas mentes argutas. Devemos restaurar esse conteúdo cultural e mostrar a evolução do número como a história profundamente humana que ela é."

Fiquemos com esta.

Armando Maia / 1991