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A MATEMÁTICA E SEUS MITOS
Não há nenhum matemático vivo que tenha conhecimento total de toda a matemática existente. Aliás, não se tem noção de toda a matemática que está sendo produzida, mas uma coisa é certa: ela está totalmente além do que a maioria das pessoas imagina ser matemática. É muito provável também que a maioria dos matemáticos não entenda o que seu vizinho está fazendo. A especialização chegou a tal ponto, que da produção matemática deste final de século, um matemático profissional provavelmente não conhecerá mais do que dez por cento. Este quadro contrasta e muito com a matemática que é ensinada nas nossas escolas. Continua-se a ensinar hoje os mesmos assuntos que nossos pais, ou mesmo nossos ancestrais aprenderam nos bancos escolares. No caso da matemática, que é uma ciência agregacionista, construtivista, isto não se torna muito grave, porque esses conhecimentos, essas produções, mantém sua validade, mesmo passados muitos séculos. O que é grave é a forma com que se ensina esses assuntos. Apresentam-se as mesmas coisas, da mesma forma também. E mais, reproduzem-se todas as crenças e mitos que cercam o ensino desta ciência e que sempre contribuíram, e muito, para o reforço desses mesmos mitos. A visão da matematização do mundo perseguida pelos pitagóricos e sacralizada pelos cartesianos aparece de maneira clara na forma com que a escola trata o saber. É a matemática que se torna retórica no campo de quem deve ser aprovado ou reprovado, que verifica se o desempenho de uma turma está "normal", que separa bons de maus alunos, que determina às vezes quais são as carreiras de status social. A matemática, parece, não discrimina, trata a todos igualmente, porque classifica utilizando números que são neutros, precisos, objetivos. Aqui não há lugar para julgamentos políticos, históricos, ou seja, não há lugar para a imprecisão, para a subjetividade. Só há lugar para o discurso do método de Descartes, para as demonstrações de Euclides, para a sisudez dos Pitagóricos. Tudo são números, já diziam eles. Pois continua-se a dizer e, talvez com uma intensidade que os surpreenderia. Se a retórica é arte da persuasão, a matemática não precisa dela. Ela persuade por si própria, pois sua substância diz tudo. Sua extrema precisão, além de persuadir, fetichiza, torna-a divina, como queria Platão. No entanto, o mito da perfeição matemática precisa ser derrubado. Euclides em sua Geometria bem comportada, estudou somente as formas "perfeitas" da natureza como os hexágonos dos favos. Se tivesse estudado também os amorfos cupinzeiros, certamente sua geometria não poderia depender somente de pontos, retas e planos. O que é matematizável, o "perfeito" orienta inclusive o nosso sentimento estético. A matemática de Euclides e Pitágoras não se ocupa das formas irregulares, do aleatório, do galho da árvore. Hoje, os cientistas redescobrem a natureza, questionando Euclides. Afinal, sua geometria não contém o formato das nuvens, o vôo errante de um beija-flor... Os matemáticos e os seus representantes na escola, os professores de matemática, são vistos pela maioria das pessoas - e às vezes concorrem para isto - como virtualmente inteligentes e porque não dizer, um pouco lunáticos. No entanto, como indivíduos, enfrentando os problemas do dia-a-dia são tão idiotas ou brilhantes como qualquer outro cidadão. O problema é que matemáticos ou professores de matemática sem uma visão histórica ou mesmo humanista, tendem a levar para o seu trabalho - no caso dos professores, a sala de aula - toda a visão arraigada de saber dicotomizada em sim/não, 0/1, certo/errado. No caso das aulas de matemática, esta visão contribui para o mito pitagórico da ciência para poucos, para os iniciados. Nossa cultura herdou do método cartesiano uma separação que está na escola, na nossa visão de mundo, em nossa organização social: a separação das áreas de ciências e humanas em campos frequentemente opostos e excludentes. Platão nunca imaginaria que as pessoas que hoje procuram seus escritos, não teriam entrado em sua escola, por conta da inscrição que lá havia. Historicamente aliadas e, às vezes, completamente misturadas, filosofia e matemática hoje são apresentadas de maneira totalmente dissociada.
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