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- Está vendo? Este é o mal do verso sem rima. Mas não sejamos severos demais com relação a poetas. Eles têm que viver na terra-de-ninguém, a meio caminho entre sonhos e realidade. - Como Mowgli - disse eu impulsivamente, pensando no garoto moreno dividido entre aldeia e o jângal. - Como quase todos nós - replicou ele, fitando-me com seus olhos azuis. Falou depois em ambição, do tempo que custa dominar qualquer arte ou profissão. E de ambições secundárias: quantas mais tivéssemos, mais pelnamente viveríamos. - Sempre desejei construir ou comprar um brigue de 400 toneladas - confiou-me ele pensativamente - e dar a volta do mundo. Suponho que agora seja tarde demais. - Acendeu um cigarro e olhou-me através da fumaça. - Se for possível, faça as coisas que você quer realmente fazer. Não espere que as circunstâncias sejam exatamente certas. Pois elas nunca o são. - Minha outra ambição não realizada - prosseguiu Kipling - era ser arquieólogo. Nenhum ofício pode ser mais fascinante, mais romântico. Escute, aqui mesmo em Sussesx, bem debaixo de nosso pés... Contou-me de como decidira cavar um poço. Poucos metros abaixo, encontraram um cachimbo do tempo de Jaime I. Mais embaixo, uma colher de latão da época de Cromwell. E mais embaixo ainda, o freio de um cavalo romano. E, finalmente, água. Voltamos para sua sala de trabalho, um vasto cômodo quadrado forrado de dois lados com estantes de livros, Ali estavam sua mesa, sua cadeira, uma enorme cesta de papel e suas canetas - das que se mergulham na tinta. Em frente à lareira, um pequeno sofá. - Deito-me ali - disse ele com um sorriso - e espero que o meu demônio me diga o que fazer. - Demônio? - Intuição. Subconsciente - replicou ele com um erguer de ombros. - Como prefira chamá-lo. - E sempre pode ouvi-lo? - Não - respondeu lentamente. - Nem sempre. Mas desde muito tempo aprendi que é melhor esperar por ele. Quando o nosso demônio não diz nada é, geralmente, porque não há nada a dizer. A Sra. Kipling chamou-nos para almoçar, e depois do almoço achei que estava na hora de retirar-me. Mas Kipling não consentiu: - Ainda estou cheio de coisas para dizer. Reparti com você o meu pão e agora tem que ser a minha platéia., Assim, continuamos conversando. Ou melhor, ele falava enquanto eu fazia esforços sobre-humanos para gravar tudo na minha memória. Kipling tinha um jeito de emitir uma verdade dura e, logo no instante seguinte, ardilosamente induzir-me a aceitá-la. - Se você fosse dotado de quaisquer energias ou talentos de importância - disse-me a uma certa altura - deve desde já resignar-se ao fato de que a vida inteira terá aderentes que tentarão explorá-lo. Mas, em vez de se irritar e preocupar com isso, fará melhor em agradecer a Deus pelas qualidades que atraem parasitas, e não desperdiçar tempo procurando livrar-se deles. Discutimos a amizade; ele achava que as jovens eram as melhores e mais duradouras. - Na mocidade - disse ele - não se tem receio de dar tudo de si mesmo. Oferecemos calor e vitalidade e simpatia sem pensar. Mais tarde, começamos a pesar o que estamos dando. Observei com certa timidez que ele me estava dando muito, e seus olhos faiscaram: - Uma troca justa. Você está-me dando atenção, e isso é uma forma de afeto, sabe? Recordando, crei no que ele sabia que, em minha inocência, eu estava ansioso por amar tudo e agradar todo mundo, e estava procurando advertir-me a não perder, nesse processo, minha identidade. Repisou diversas vezes o tema. - O indivíduo sempre teve que lutar para não se deixar dominar pelo clã. Ser dono de si mesmos é uma tarefa difícil. Se o tentar, você se sentirá solitário e às vezes terá medo. Mas nenhum preço é demasiado alto pelo privilégio de ser dono de si mesmo. Subitamente, as sombras alongaram-se no gramado. Quando levantei-me para sair, lembrei da carta que tinha no bolso e do conselho de que eu pensara necessitar. Mas agora não havia nada a perguntar. Faça as coisas que você realmente quer fazer...Não espere que as circunstâncias sejam idéias...Quando seu demônio se cala, é geralmente porque não tem nada a dizer...Nenhum preço é demasiado alto pelo privilégio de ser dono de si mesmo. Eu sabia agora que iria recusar o emprego de professor e esperar que o meu demônio me falasse claramente. Caminhamos até o portão, Malachi disparando na nossa frente. Kipling estendeu-me a mão: - Obrigado - disse-me. - Você me fez bem. A idéia de que eu fizera alguma coisa por ele estava acima de minha compreensão. Agradeci-lhe e entrei no velho Sunbeam. Olhei uma vez para trás. Ele ainda continuava parado no mesmo lugar com o seu chapéu desabado, um grande pequeno homem que esquecera de sua doença e de seus problemas e passara um dia inteiro procurando ajudar um jovem americano confuso e inibido. Ele tinha, sem dúvida, o dom das jovens amizades. Deu-me mais do que conselhos. Deu-me um pouco de si mesmo. E após todos esses anos, ainda sinto o seu calor.
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