Artigos

Contos

chuva fina e intermitente.  O que existia do mundo era apenas um quarto em penumbra, alguns objetos toscos e simples, uma cama e uma janela.
Suas roupas não eram suas, haviam sido trocadas. Na janela, ele procurou a paisagem chuvosa e hostil, mas o que viu foi um céu de luzes morrendo num crepúsculo tão frágil quanto a respiração de um convalescente. Lá longe o mar alongava seus dedos em vagas ociosas e serenas.  Parecia um mágico hipnotizando.  O anjo ergueu-se e aproximou-se da janela. Não havia cais, nem mercado, nem homens, nem templo.  Apenas a praia de areias brancas, o grande mar, o céu ainda vermelho dos últimos raios de sol.
Esperamos a Noite, pois sentíamos uma estranha presença.
O vento pôs-se a soprar em seu rosto. Seus cabelos espalharam-se e dançaram ao sabor daquela música inaudível. Então eu fechei meus olhos e lembrei-me do sonho que tivera. O que seria aquela presença, tão forte e pujante? Quem seria?  Não nos olhamos naquele momento, mas adivinhamos que nossos olhos mantinham acesa a mesma luz de curiosidade e espera.
"
-- Falta pouco agora."
Espantei-me e abri os olhos, tão raras as vezes em que ele falava.  Era um anjo, tinha toda a eternidade diante de seus olhos, não havia por que se preocupar.  Cedo ou tarde conheceria todas as coisas possíveis e impossíveis que o Universo havia guardado.  Tinha um encontro marcado com Seu Criador, em algum lugar da superfície do tempo.  Então, por que aquilo agora?
Fechei os olhos novamente e escutei o silêncio.  Mas havia naquele silêncio um estranho limite entre as imagens do sonho e as palavras do anjo que permaneciam flutuando em meu coração.  Pude ver novos elos entre os pensamentos e neles a presença constante daqueles pequenos deuses que lutavam diariamente à beira do cais, atirando lama uns nos outros.  Senti uma imensa ternura tomando conta do meu coração, via-os novamente, de uma certa maneira como minha própria criação.
Voltei dos lugares para onde havia viajado e tornei com a realidade. Dei-me conta de que o anjo estava demorando em sua missão. Estava ali para levar uma mensagem a alguém. Não sabia qual a mensagem, nem a quem deveria entregá-la, mas no momento certo encontraríamos a pessoa certa para então esquecê-la para sempre.  Lembrava-se apenas de ter-se perdido no caminho, de tê-lo encontrado ferido e de termos adormecido na beira do cais, quando ainda distraia olhar os homens que devoravam-se na guerra de todos os dias.
E tanto ele quanto eu sabíamos bem que guardar uma coisa não significa conhecer essa coisa; o mundo está cheio de exemplos.
Talvez o anjo tivesse pressentido o perigo naquela sensação de que eu era presa. Um estranho fogo ardeu em meu coração, uma dor de morte caiu sobre meu ser. Compreendeu que seria de urgência abandonar aquele lugar, e foi exatamente isso que fez, sem que houvesse tempo para palavras, nem olhares.
Sem olhar para trás pôs-se a caminho, já era tempo de ir em frente. Sem dúvida experimentara demais para um anjo, mas aquela sensação estava perdida em algum lugar da memória de sua estória, disso eu tenho certeza.
Da palidez da face de um anjo...
Percebi a candidez do teu brilho.
"

Chorou o breu etéreo do firmamento, já fazia-se noite. Jazia a esperança antes agrilhoada às verdades dogmáticas. Apenas o brilho dos olhos de um jovem em harmonia com o rutilar incansável das velhas estrelas.

· · ·


Ele depositou seu hábito no sacrário das esperanças, obstinado, rumo às incertezas da Verdade...

___________________________________________________________________________________


Romulo Siqueira Batista é filósofo, poeta e escritor, tendo nascido em 12 de junho de 1975 na cidade do Rio de Janeiro. Publicou o livro de poesias Angústia (1998) e o texto filosófico Ensaios Sobre o Átomo (2000).
e-mail: rosbatista@yahoo.com.br


Rodrigo Siqueira Batista nasceu no Rio de Janeiro em 6 de setembro de 1971. É médico, filósofo, poeta e escritor, tendo publicado Solidão (1994; 2a edição 1999), Moléstia de Chagas (1996), Noite (1997), Sonetos Rebeldes (1997), Esquistossomose mansoni (1998), Plantas Medicinais. Do Cultivo à Terapêutica (1998), Amor. Um ensaio poético-prosaico (2000), Miséria (2000), Ensaios Sobre o Átomo (2000) e Medicina Tropical (2000).
e-mail: anaximandro@hotmail.com