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- Não tenho crimes. - Não importa; colherá prazer em fumá-lo. Aceitei o charuto, e guardei-o. - Consente que o guarde? - Pois não, respondeu ele. Outro silêncio mais prolongado. Vi que o homem não estava para conversa: a fronte se lhe entristecia cada vez mais como a Tijuca quando está para cair temporal. Ao cabo de alguns minutos, disse-lhe eu: - Simpatizo muito com o senhor; quer que eu seja seu amigo? Luziram os olhos do homem. - Meu amigo? disse ele: oh! por que não? preciso de um, mas de um amigo verdadeiro. Estendeu-me a mão, que eu lhe apertei com afeto. - Como se chama? perguntei eu. Sorriu o velho, soltou das cavernas do peito um longo e magoadíssimo suspiro, e respondeu-me: - Jaime. E o senhor? - Miranda, doutor em medicina. - É brasileiro? - Sim, senhor. - Meu patrício então? - Creio. - Meu patrício! E dizendo isto o velho teve um sorriso tão infernal, tão sombrio, tão lúgubre, que eu tive idéia de me ir embora. Reteve-me a curiosidade de chegar ao fim. Jaime não prestava atenção ao que se passava ali: e exclamava de quando em quando: - Os idos de março! os idos de março! - Olhe, meu amigo Sr. Jaime, quer ir dar um passeio comigo? Aceitou sem dizer palavra. Quando nos achamos na rua perguntei-Ihe se preferia algum lugar: Respondeu-me que não. Andamos ao acaso: eu procurava travar conversa a fim de distrair o homem dos idos de março: e consegui a pouco e pouco que se tornasse mais conversador. Era então apreciável. Não falava sem gesticular com o braço esquerdo, com a mão fechada, e o dedo polegar aberto. Contava anedotas de mulheres e mostrava-se grande apreciador do sexo amável: era exímio da descrição da beleza feminina. A conversa passou à história, e Jaime exaltou os tempos antigos, a virtude romana, as páginas de Plutarco, Tito Lívio e Suetônio. Sabia o Tácito de cor e dormia com Virgílio, disse ele. Seria um doido, mas conversava com muito juízo. Sobre a tarde tive fome e convidei-o a jantar. - Comerei pouco, respondeu Jaime: estou indisposto. Ai! os idos de março! Jantamos em hotel, e eu quis acompanhá-lo à casa, que era na rua da Misericórdia. Consentiu nisso com verdadeira explosão de alegria. A casa condizia com o dono. Duas estantes, um globo, vários alfarrábios espalhados no chão, uma parte sobre uma mesa, e uma cama antiga. Eram seis horas da tarde quando entramos. Jaime tremia quando chegou à porta da sala. - Que tem? perguntei-Ihe eu. - Nada, nada. Mal entrávamos na sala, pulou da mesa, onde se achava acocorado, um enorme gato preto. Não fugiu: saltou aos ombros de Jaime. Este tremeu todo e procurou aquietar o animal passando-lhe a mão pelo lombo. - Sossega, Júlio! dizia ele, enquanto eu com o olhar inspecionava o albergue do homem e procurava cadeira onde me sentasse. O gato pulou depois à mesa e fitou em mim dois grandes olhos verdes, fulminantes, interrogadores; compreendi o susto do velho. O gato era modelo na espécie; tinha certo ar de ferocidade da onça, de que era miniatura acabada. Era todo preto, pernas compridas, longas barbas: gordo e alto, tendo uma extensa cauda que brincava no ar dando saltos caprichosos. Tive sempre antipatia aos gatos: aquele causava-me horror. Parecia-me que ia saltar sobre mim e esganarem com as largas patas. - Mande o seu gato embora, disse eu a Jaime. - Não faz mal, respondeu-me o velho. Júlio César, não é verdade que tu não fazes mal a este senhor? O gato voltou-se para ele; e Jaime beijou repetidas vezes a cabeça do gato. Do susto passara à efusão. Compreendi que seria pueril assustar-me quando o animal era tão manso, ainda que não compreendi o medo do velho quando entrou. Haveria alguma coisa entre aquele homem e aquele bicho? Não pude explicá-lo. Jaime acariciou o gato enquanto eu por me distrair lia o título das obras que estavam nas estantes. Um dos livros tinha no lombo este título: Metempsicose. - Acredita na metempsicose? perguntei eu. O velho, que estava ocupado em tirar o paletó e vestir um chambre de chita amarela, interrompeu aquele serviço, para dizer-me: - Se acredito? Em que queria o senhor que eu acreditasse? - Um homem instruído, como o senhor, não devia crer em tolices desta ordem, respondi abrindo o livro. Jaime acabou de vestir o chambre, e veio a mim. - Meu caro senhor, disse ele; não zombe assim da verdade; nem zombe nunca de filosofia nenhuma. Toda a filosofia pode ser verdadeira; a ignorância dos homens é que faz de uma ou de outra crença da moda. Contudo para mim, que as conheci todas, só uma é a verdadeira, e é essa a que alude o senhor com tanto desdém. - Mas... - Não me interrompa. disse ele; quero convencê-lo. Levou-me a uma poltrona de couro e obrigou-me a sentar ali. Depois foi sentar-se ao pé da mesa, em frente a mim e começou a desenvolver a sua teoria, que eu ouvi sem pestanejar. Jaime tinha a palavra fácil, ardente, impetuosa; animavam-se-lhe os olhos, tremia-lhe o lábio, e a mão. a famosa mão esquerda, agitava no ar o dedo polegar aberto e curvo como um ponto de interrogação.
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