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ANGELUS

IRMÃOS SIQUEIRA BATISTA
(ROMULO SIQUEIRA BATISTA & RODRIGO SIQUEIRA BATISTA)

Teu maior inimigo é tua redenção. Renascerá dessa fera inclemente que te devora.
Tua dor é tua luz.  Segue-a.

(Romulo Siqueira Batista)


O vinho sagrado umedece o pão,
Volvendo ao cálice etéreo da existência.

(Rodrigo Siqueira Batista)


O tempo cortava a história com sua frialdade medieval. Há pouco surgira uma manhã nevoenta, carregada do perfume sedutor e incondicional do orvalho. A natureza chorava de alegria pelo sol que ganhara o firmamento, com a força de todos os alvoreceres.
O monge partiu cedo. Seria longa e pedregosa a caminhada, trazendo em si a dor inerente à vereda, mesclada ao cansaço das horas noturnas mal dormidas. Velara suas dúvidas por toda a angustiante noite. Sentia -- e pressentia -- o dia como revelação do seu Senhor, ungüento sagrado capaz de esvurmar as fétidas chagas que se abriram em seu coração.
Sol e sono minava aquele homem. Vislumbrou, no auge da exaustão, uma figueira -- sob ela um veio d'água. Optou por amainar seu sofrimento naquele pequenino oásis. Aproximando-se, pode observar o Velho Eremita, filho das montanhas, maltratado pela sucessão de estações. Seus farrapos disseram ao Monge que talvez estivesse com fome. Este, ofereceu pão ao Eremita, que aceitou de bom grado. Retribuiu a gentileza, oferecendo ao Monge um delicioso vinho, até então em seu alforje. Cearam ali, comungando dores -- pão e vinho --, luzes primeiras para o Verdadeiro amanhecer que viria. Repousaram, sem pronunciar palavra, e cairam em sono profundo, sob o frescor da figueira.

· · ·

O Eremita suspirou o aroma agradável do entardecer. Compreendendo a circunspecção que brotava junto às lágrimas do Monge, fitou-o e disse:
" --
Me comove tua dúvida... 'Transmuta-se-me' o passado-presente-futuro, rompendo reminiscências que se fazem agora e amanhã. Mas não esmoreça: teu sofrimento é tua dádiva; sem ele, não conhecerás a verdade."
O Monge estacionou o choro frio e calado. Lavou o rosto, refrescou a alma e redargüiu:
" --
Noites escapam por entre meus dedos, há tantos anos! Oro e clamo ao meu Senhor para que me oriente ao Caminho, mas sinto-me tão só. Optei por abdicar da vida e da experiência, por compreender que esta entrega levaria-me à sabedoria. Um asceta, eu sou...
Inquieto foi o olhar lançado pelo Eremita. Arrebatados foram os fantasmas do conhecimento estéril, aquele que condena o homem. Vida e morte, as faces emoeiradas de uma mesma moeda que lançamos ao alto em vão, evocando uma circunspecção que se ri de sua própria tolice. Anos haviam tornado aquele espírito, conformando a têmpera espelhada nos profundos olhos daquele ancião. Ele bebeu da água de todas as matizes, a fonte da memória, e contou ao Monge:
" --
O anjo chegou, seus pés feridos tingindo de rubro as pedras milenares do cais.  Lá fora, no grande mar, os homens lutavam contra as correntezas, lutavam contra a força descomunal dos ventos, erguendo a todo instante seus olhos para o céu, em busca de uma réstia de sol que confortasse o pensamento e espantasse o medo do coração.  As vestes do anjo estavam manchadas com seu sangue e ainda úmidas do orvalho da madrugada.  Na beira do cais todas as outras pessoas permaneciam presas em seus próprios afazeres, carregando e descarregando os barcos, limpando e vendendo o pescado, praticando o comércio livremente como se as pedras do cais não levassem diretamente para o interior do templo.  A chuva tímida e leve baixava do céu sem que desejasse descansar um só minuto.
As vozes erguiam-se muito alto, portanto não era possível saber se o anjo fazia ou não algum tipo de prece.  Entretanto seu semblante estava tão cansado que não seria um pecado dizer que seu único desejo, ao recostar-se sob o velho trapiche, era descansar do cansaço e do frio e adormecer.  E foi isso o que aconteceu.  Pelo menos na aparência.
Então eu adormeci e sonhei.  Sonhei com rios de luz, sonhei com imensas cores, brilhos fulgurantes, tardes douradas pelo brilho avermelhado de um Sol quente e bom.  Sonhei com leões alados, com dias de paz e sossego.  Mas em meus sonhos experimentei uma sensação diferente, quente e boa, tão forte e intensa quanto um crepúsculo explodindo cores na agonia final.  Em meus dias de vida jamais havia um sonho de forma tão estranha quanto naquela tarde sombria e gelada, onde os homens lutavam para sobreviver à fúria do mar.
E se o anjo tivesse acordado no exato instante em que lá, fora daquele mundo, os homens pereciam ante a fúria de el mar, saberia que o fogo que ardia no fundo do meu peito muito tinha que ver com aquela avassaladora força de fêmea que se manifestava naquele instante.  Mas ele continuou dormindo e eu, sonhando, e seu sorriso tranqüilo asseverava que também ele sonhava um sonho bom.  E então vieram tardes brilhantes, praias de areias brancas, ilhas de selvas verdejantes de natureza viva e sensual, uma natureza quente e perfumada, toda tomada por ruídos e sentidos.
Mas quando ele despertou todas as coisas haviam passado.  Havia passado o mar, os homens, as pedras milenares do cais, a